Os inimigos da modernidade

Por Adelson Vidal Alves

O termo moderno pode servir para muita coisa. Em história, falamos em Idade moderna a partir dos marcos de ruptura com o mundo medieval e feudal até a revolução francesa. Podemos tratar o moderno como algo atual e novo no campo tecnológico. Um celular é moderno quando reúne a tecnologia mais avançada do momento. Por fim, ser moderno nos costumes pode indicar mudanças de comportamento, aspectos inovadores nas relações interpessoais.

Quando falamos de modernidade talvez estejamos falando de um pouco disso tudo. Mais que isso, falamos de um referencial de organização cultural, social, política e comportamental que se inspira na revolução iluminista e na concepção universalista da razão como valor supremo, instrumento central do aprimoramento civilizacional e progressista. Contra ela ergueram variados agentes políticos, interessados no freio do moderno, seja para preservação de estruturas históricas da vivência humana ou mesmo um retorno a um paradigma fundado na tradição.

O historiador Ted V. Mcallister abordou dois dos nomes mais aguerridos na luta contra a modernidade: Leo Strauss e Eric Voegelin. Em seu livro, o autor detalha a vida e a militância desses dois pensadores, afirmando que “Eles foram antimodernos conservadores, isto é, seu antimodernismo reporta-se a algo perdido, uma herança digna de resgate”. Apesar do uso do termo “conservador”, o rótulo melhor para Strauss e Voegelin é “reacionário”. Eles não querem conservar algo, defendem o retorno a um passado paradisíaco sem as depravações promovidas pela modernidade.

Ainda que o moderno esteja presente em todas as partes do planeta, é o Ocidente que se afirma como berço da modernização. Foi lá que foi mais acelerado o processo de alfabetização, urbanização e progresso técnico, marcas da modernidade, movida pela ambição do desenvolvimento industrial, onde os seres humanos se elevam como o centro de nossas preocupações, não mais Deus. O antropocentrismo que retira a divindade e a mística da centralidade humana e faz concentrar no próprio homem a razão de nossas grandes ambições. A modernidade desencanta o mundo encantado, promove movimento, não mais valores estáticos por traz de alguma estrutura imutável ou duradoura. Nenhum lugar do mundo viu mais isso acontecer que na Europa Ocidental, motivo pelo qual, hoje, ser antimoderno é ser anti-Ocidente.

Percebemos essa hostilidade contra os valores ocidentais em vários ramos da espiritualidade e filosofias orientais. Aqui, geralmente, o esotérico, o ocultismo  e a religiosidade se misturam a projetos imanentes da história, de modo que o fundamentalismo islâmico e o eurasianismo, por exemplo, se unem em um único exército contra o Ocidente moderno.

Podemos encontrar muitos desses pontos na Guerra da Ucrânia. Se há um indiscutível lado econômico na questão, por outro lado não se pode deixar de avaliar aspectos ideológicos presentes na cabeça de Putin, o promotor dessa guerra. O principal intelectual a sistematizar as ambições russas é o cientista político Alexandr Dugin, para quem a “Mãe Rússia” é o agente missionário da tradição contra a decadência materialista do Ocidente. Benjamin Teintelbaum aborda o pensamento de Dugin em seu livro “Guerra pela eternidade” e explica que “Os tradicionalistas aspiram a ser tudo que a modernidade não é- comungar com valores que eles consideram serem verdades e estilos de vida transcendentes e atemporais, em vez de buscar “progresso”.

Os inimigos da modernidade se conectam nessa mística retrógrada contra tudo que significa dinâmica progressista, absorvem juntos a nostalgia por tempos de grandeza espiritual, pedem o guarda-chuva da tradição contra as mudanças rápidas e estruturais de instituições tidas como eternas. O Ocidente abraça a modernidade e com ele todo seu sentido de racionalidade, liberdade, progresso e bem estar material. A guerra contra o Ocidente é contra o moderno, contra a universalidade de um mundo livre relativamente homogêneo e cosmopolita, sustentado nos ideais da razão como guia universal para a paz e a justiça.

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