Crie um site como este com o WordPress.com
Comece agora

O liberalismo volta ao centro do debate no Brasil

Por Adelson Vidal Alves

Quando criei este blog tinha na cabeça um único objetivo: explicar para pessoas comuns o que era o liberalismo de verdade. Sim, o liberalismo de verdade, pois parte da esquerda brasileira insistia (e insiste) em tentar criar uma caricatura diabólica do pensamento liberal. O liberalismo, na melhor das hipóteses, seria uma espécie de sindicato patronal agindo malvadamente contra os pobres, defendendo uma ordem econômica opressora e perversa.

A simplificação ignora os números que testemunham a favor do capitalismo como sistema de produção que mais fez pelos pobres, contra as desigualdades e a favor do progresso (Para melhor entender os números, indico o livro “O Novo Iluminismo” de Steven Pinker). Na retórica esquerdista, a emancipação do homem passa pela derrubada (por que não violenta?) do sistema do capital e sua monstruosa reificação.

Tinha toda a consciência dos meus limites. Sempre soube que era minoria entre meus pares nas ciências sociais, e bem sabia que não dava para contar com gentilezas universitárias na abertura de um debate amplo sobre a temática liberal. Na arena das ciências humanas não há espaço para os defensores da ordem vigente. A senha do clube é “revolução”. Não tinha acesso.

Mas eis que os ventos parecem estar virando. No Brasil, o ideal socialista se inclina para uma metamorfose, enfim, com gente cedendo à realidade. O católico conservador Geraldo Alckmin entra para o Partido Socialista Brasileiro, onde já estão o dissidente petista Marcelo Freixo, o dissidente comunista Flávio Dino e a social-liberal Tabata Amaral. No mesmo grupo, revolucionários que já defenderam ditaduras comunistas e a jovem deputada que votou pela “reforma liberal” da previdência.  Geraldo, então, chega para emprestar seu prestígio ao candidato Lula, do PT. Não tenho dúvidas que é questão de tempo o PSB tirar da sua sigla o “S” de socialista, como fez o PPS. Deixem a revolução para a rapaziada dos DCEs.

Toda essa cambalhota promovida no centro da esquerda socialista provocou a publicação de um provocativo artigo de Hélio Beltrão na Folha de São Paulo. Ele saúda, como eu, o retorno do prestígio liberal nos debates, testemunhado em sequentes textos publicados pela grande imprensa. De outro lado, José Pinheiro da Fonseca também vai tratar, no mesmo jornal, da questão do liberalismo brasileiro. Os artigos são de linhas diferentes.

Beltrão faz questão de demarcar uma espécie de liberalismo que absolutiza o direito de propriedade e faz aberta apologia ao laissez-faire. Para sua empreitada convoca Mises, Bastiat, Hume, Smith e outros. Sacerdotes da pureza liberal. Os liberais moderados, ou social-liberais, como eu prefiro chamar, seriam na verdade “fabianos”, sociais democratas pra dizer o mínimo. Seria aquela gente que defende função social da propriedade e está até disposta a votar em Lula. É a turma do Rawls, Mill, Keynes, Popper e Merquior.

Joel Pinheiro da Fonseca, com bem menos proselitismo purista, fala do liberalismo brasileiro com otimismo. Claro, aborda todos aqueles que entraram de mala e tudo para o barco do bolsonarismo, movido fanaticamente por sua sede de liberdade econômica, mesmo a custa de danos à democracia pluralista que marca o liberalismo politico e suas exigências de liberdade individual. Apoiar livre comércio e ignorar liberdade política não é privilégio dos liberais bolsonaristas, podemos voltar a Friedman e os boys de Chicago e veremos o liberalismo de mãos dadas com o sanguinário Pinochet.

Joel fez questão de mostrar exemplos de fôlego no Brasil dispostos a limpar o liberalismo brasileiro de suas distorções mais trágicas. Citou o Livres, um movimento decente que tentou salvar o PSL, até saírem da legenda capturada pelo atual presidente. No Livres há liberais respeitados como Fernando Schuller e Ricardo Paes de Barros, o homem do Bolsa Família. Aqui e em outros exemplos Brasil a fora encontram-se um liberalismo que não abandona legítimas preocupações sociais, sem se deslocar da defesa intransigente da liberdade.

Estes e outros debates estão acontecendo, e a boa noticia é que parece estar no radar um racha necessário entre os fundamentalistas de mercado, tão bem representados no Ministério de Paulo Guedes e no sistema financeiro, e aqueles que são verdadeiramente agentes da defesa da economia de mercado e das liberdades individuais, sem necessariamente praticar uma estadofobia que só faz por ignorar o fato de que o poder público permanece com responsabilidades grandes frente a um país de miseráveis e imoralmente desigual. Faço parte deste segundo grupo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: