Vinte anos depois do artigo de Robert Cooper

Por Adelson Vidal Alves

Niall Ferguson, renomado historiador escocês, tem um livro fantástico que conta com honestidade ímpar a história do império britânico. Na obra, chamada “Império: como os britânicos fizeram o mundo moderno”, o escritor e pesquisador de Harvard encerra sua exímia pesquisa com uma pergunta: Um novo imperialismo?”.

Ferguson cita, em seu trabalho, o pronunciamento do então ministro britânico Tony Blair, pouco depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 nos EUA. Nele, o político propõe reflexão sobre o que chamou de “reordenamento do mundo a nossa volta”, fazendo elogios a intervenções militares em Serra Leoa e contra o regime de Milosevic na Sérvia. Depois, afirma que se os massacres de Ruanda da década de 90 se acontecessem novamente hoje, seria “dever moral” uma ação intervencionista. Ferguson conclui pela fala de Blair que o primeiro-ministro deixava claro as vantagens da ação militar em Kosovo e em Serra Leoa e a carnificina de milhões em Ruanda, onde não houve intervenção.

Meses depois, um famoso diplomata ligado a Blair publicou artigo polêmico em The Observer, que também chegou ao Brasil em maio de 2002. O texto, que abalou as estruturas do meio trabalhista inglês, intitulava “O novo Império não ataca?”, onde se propunha “um novo tipo de imperialismo aceitável ao mundo dos direitos humanos e dos valores cosmopolitas”.

Cooper coloca um aspecto bastante ousado, o de que se “Estados pré-modernos” se tornassem “perigosos demais para os estados estabelecidos tolerar”, seria possível imaginar o que chamou de “imperialismo defensivo”. Nessa nova ordem global, os “bem governados” exportariam “estabilidade e liberdade”. O ensaio, ainda, compreende a formação de blocos nacionais em distintas condições civilizatórias: as nações ditas pós-modernas, as modernas e as pré-modernas. No mundo atual, já existiria tutela mundial no campo econômico, como nas orientações de organizações financeiras internacionais como o Banco Mundial e o FMI, que auxiliam países pobres com recursos mas não sem antes fazer exigências comportamentais dos que voluntariamente aderirem às suas políticas. Copper sugeriu, aqui, um “imperialismo voluntário”.

No entanto, no que toca a estágios civilizacionais selvagens, as relações entre os estados pós-modernos e os pré-modernos deveriam obedecer uma lógica de “leis selvagens”, já que se tratam de realidades fracassadas onde nem mesmo se pode assegurar a integridade territorial da nação. Cooper, nas suas pretensões, entende que o novo Imperialismo tem realmente um aspecto novo, a disposição das nações avançadas em cooperarem, ao invés de entrarem em disputas sangrentas como as que fundamentaram as bases da primeira guerra mundial.

De fato, a globalização comercial forneceu um ambiente de competição onde se faz completamente desnecessário a anexação de territórios. O comércio livre permite acesso pacífico de país para país, motivo pelo qual hostilidades militares já não são vistas entre as principais potências imperiais do velho imperialismo. Por isso, Cooper se empolgou com a possibilidade da União Europeia de assumir as rédeas da nova ordem imperial, já que “A UE pós-moderna oferece um exemplo de império cooperativo, uma liberdade comum e uma segurança comum sem dominação étnica”.

O mundo vinte anos depois do artigo de Cooper mudou pouco, mas enfrenta hoje o dilema da guerra da Ucrânia. Os estados selvagens seguem existindo, principalmente em regiões da Ásia e da África, onde o que chamo de “Uso humanitário da força” se faz necessário. Só que a UE só pode fornecer diretrizes institucionais de relações diplomáticas, já que a Europa perdeu poderio militar no pós-guerra. Sendo assim, penso eu, hoje Cooper poderia incluir os EUA e a OTAN como agentes protagonistas nesse novo imperialismo, principalmente por conta da Rússia, uma potência militar de cultura pré-moderna e visões de mundo fundadas no ultrapassado imperialismo dos séculos passados. Hoje, Vladimir Putin tem a anacrônica ambição de restaurar pela força das armas o território da “Mãe Rússia”, numa guerra que assumidamente se tornou uma guerra contra o Ocidente.

Quando Kant escreveu seu pequeno grande ensaio de busca pela paz perpétua, condicionou um futuro mundo pacífico pela condição de um federalismo livre sem hierarquias. É uma utopia tentadora se o mundo de fato obedecesse a algum padrão igualitário civilizacional. Infelizmente, não é assim. A existência de realidades nacionais e estatais distintas, com paradigmas primitivos governando milhões de pessoas pela coerção do fundamentalismo, do fanatismo ou simplesmente da ambição, a existência de uma ordem global unipolar e hierárquica se faz necessária, mesmo que de forma transitória. Vinte anos depois, o ensaio de Cooper segue sendo atual.

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