Os 90 anos de Admirável Mundo Novo e o nosso futuro

Por Adelson Vidal Alves

As pessoas ficam tristes, nervosas, ansiosas, então recorrem a alguns comprimidos que trazem paz e tranquilidade instantânea. Só devem tomar cuidado nas doses, pois podem fazer dormir demais. Não, eu não falo aqui do famoso Rivotril, mas do Soma, a substância ingerida pelos personagens de Admirável Mundo Novo, romance de Aldous Huxley que completa 90 anos.

O livro de 1932 é um clássico da literatura distópica, ao lado de outras obras como 1984 e Fahrenheit 451. O enredo da obra é assustador e se sustenta nas ambições de uma futura sociedade totalitária que fabrica a ordem social em laboratórios. O sistema de castas se forma em um Centro de incubação, debaixo do lema do Estado mundial: COMUNIDADE, IDENTIDADE E ESTABILIDADE. Os grupos de pessoas obedecem a lógica da produção em série fordista (Henry Ford ganha papel religioso na trama) onde agrupamentos inferiores são produzidos e educados para serem inferiores, através de uma doutrinação chamada “consciência de classe”. As letras do alfabeto grego hierarquizam a sociedade, com castas superiores a comandarem e outras a obedecerem. Tudo pelo processo determinista da ciência.

No Admirável Mundo Novo, a maternidade é anátema. O simples uso da palavra “mãe” é o suficiente para causar horror. A civilização aqui atingiu grau de “evolução” onde já não existem famílias tradicionais, monogamia, ou mesmo religião. O passado selvagem da fé, dos sentimentos amorosos e dos núcleos de sangue cede ao prazer e a promiscuidade. Ninguém é de ninguém. Mulheres simplesmente são usadas, experimentadas sem qualquer ilusão de compromisso (o feminismo também foi abolido). Fazer sexo e não procriar é a ordem, afinal “civilização é esterilização”. O futuro distópico do livro de Huxley também coloca fim a individualidade. O governo é coletivista.

O desenrolar do romance passa pela visita do personagem Bernard Marx a uma reserva de selvagens, onde ele conhece dois selvagens que leva para a civilização. O próprio Marx é um Alfa, casta superior, mas por alguns desvios da produção, tem dificuldades de se encontrar na sociedade.

Admirável Mundo Novo é só ficção, podem pensar alguns.  Claro que é. Mas não nos assustemos caso mais um romance seja capaz de antecipar coisas da nossa vida real. A própria Fertilização In Vitro não existia no período que foi escrito o livro, e hoje é uma realidade. No mais, a ideia de curvar a reprodução sexual humana ao planejamento científico não é nova e nem impossível.

“O que resultaria de mais algumas pequenas mudanças em nosso DNA, no sistema hormonal ou na estrutura do cérebro? A boiengenharia não vai ficar esperando pacientemente a seleção natural realizar a sua mágica. “Bioengenheiros vão pegar o velho corpo do Sapiens e reescrever intencionalmente seu código genético, reconectar seus circuitos cerebrais, alterar seu equilíbrio bioquímico e até mesmo provocar o crescimento de novos membros. Disso resultarão novas entidades divinas que poderão ser tão diferentes de nós Sapiens quanto somos diferentes do Homo erectus”, escreveu o historiador e divulgador científico Yuval Noah Harari em seu livro “Homo Deus: uma breve história do amanhã”.

A engenharia genética é uma realidade, e pode trazer benefícios, como a de vencer doenças, retardar o envelhecimento e até mesmo impedir que o homem fique triste. Na obra de Huxley, a dita comunidade civilizada se assusta com a aparência de Linda, a selvagem que Marx leva para a civilização. Obesa, envelhecida e sem dentes ela contrasta com a sadia sociedade que por meio de procedimentos médicos mantinha seus membros em aparência joviais. Isso não é impossível para nossa ciência, pelo menos não em tese.

No entanto, caso cheguemos a esse nível, quem nos garante que a engenharia científica não seja usada para atender ao mercado de vaidades, ou que mesmo seja capaz de antecipar as funções sociais dos membros da comunidade, fabricando gênios e escravos? Não se trata de uma especulação sem sentido, a Inteligência Artificial é uma realidade, a nanotecnologia também, o que pode frear um mundo de super-homens contra mortais inúteis é a ética. Mas ela será usada?

Admirável Mundo Novo é um clássico para ser lido com reflexões filosóficas para os nossos tempos. É possível que o novo Estado autoritário não seja do tipo orwelliano, não necessitando de ameaças violentas e repressão policial. Tudo estará ao alcance de uma elite do conhecimento, e isso pode ser muito mais terrível.

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