Cosmopolitismo institucional e a necessidade de um Novo Imperialismo

Por Adelson Vidal Alves

Se alguém te chamar de imperialista saiba que as chances que tenha sido uma tentativa de te ofender são grandes. O imperialismo a partir da segunda metade do século XX virou sinônimo de pilhagem, violência e genocídio. Neste momento, criou-se a expectativa de que na medida em que a descolonização se efetuasse o mundo se encaminharia para uma paz duradoura com prosperidade e liberdade. Mas isso não aconteceu.

Em “Colosso: ascensão e queda do império americano”, o renomado historiador escocês Niall Ferguson demonstra em gráficos que as ex-colônias depois de décadas de autonomia viram piorar suas condições de vida. Os novos Estados-nação, em grande parte, afundaram-se em regimes ditatoriais violentos e corruptos, com economias em frangalhos, fome e guerra civil. Abandonados ao seu próprio destino, as novas nações enfrentam enormes dificuldades na resolução de problemas básicos da vida em sociedade.

O multiculturalismo, celebrado por muitos como a ideologia da tolerância, fornece os fundamentos teóricos para um igualitarismo cultural fantasioso. Parte-se da ideia de que não existem culturas superiores e inferiores, apenas diferenças. Dessa forma, não há qualquer problema com culturas que promovem infanticídio, são tão legítimas quanto os valores culturais que pregam direitos humanos universais. Qualquer tentativa de interferência externa ganha de imediato a condenação.

O fato, porém, é que os países da África e da Ásia tiveram tempo para se readequar ao novo mundo de independência nacional, principalmente porque recebem ajudas generosas do Ocidente, no entanto, a situação só piora. Por que isso acontece? A resposta está nas instituições. Em “A riqueza e a pobreza das nações”, David Landes cita alguns pontos fundamentais para que uma nação se desenvolva: direito de propriedade, liberdade individual, estabelecimento de contratos e estabilidade administrativa. Quanto mais tais elementos se articulam dentro de um território, maior as chances de prosperidade. Em resumo, de nada adianta enviar volumosas ajudas financeiras aos países atrasados se não há instituições adequadas para o desenvolvimento.

Tais povos não irão conseguir erguer uma nova institucionalidade sozinhos, por isso a necessidade de intervenção externa, isto é, um Novo Imperialismo. Como escreveu Ferguson sobre os países pobres: “Na maioria dos casos, parece que a única esperança para o futuro seria uma intervenção por uma potência estrangeira capaz de construir as fundações institucionais básicas indispensáveis para o desenvolvimento econômico”.

Cosmopolitismo institucional: o papel da União Europeia no Novo Imperialismo

A ideia de um Novo Imperialismo precisa obedecer a precisão do termo, ou seja, ser realmente novo. Três elementos são indispensáveis, a Adesão Voluntária, o Uso humanitário da força e o Cosmopolitismo institucional. É preciso reconhecer que uma nova ordem imperial exige persuasão e consentimento, e a força só deve ser usada para fins humanitários de pacificação e eliminação de elementos perigosos à paz e a civilização, como o terrorismo e os Estados delinquentes. O cosmopolitismo institucional é o eixo de organização para um novo ordenamento político, econômico e jurídico que se estabeleça pela negociação diplomática, com vistas a construir um território comum de convivência planetária.

A experiência de maior sucesso nesse sentido foi sem dúvida a União Europeia. O espírito cooperador e fraterno que se estabelece na organização europeia é a fonte exemplar para uma relação global entre os povos, de livre circulação, moeda e legislação comum, construção de paridades, relações hierárquicas justas e que possam dirigir a transição de um mundo fundado em diferenças nacionais para uma nova realidade de grande síntese civilizacional.

A UE teria seria a referência conceitual da nova diplomacia imperial, mas institucionalmente deveria colaborar com outras organizações internacionais já consolidadas, como a ONU, a OMC, a OMS e até mesmo as alianças regionais. A cultura da globalização e do livre comércio devem ser difundidas a partir dessas instituições, levando gradualmente a todas as partes do planeta desenvolvimento econômico e político, considerada a democracia valor universal de interesse permanente para todos.

Há muitos obstáculos, nesse momento a Rússia promove uma guerra de invasão que contraria os tratados mínimos construídos pelos países no pós-guerra. Putin é hoje uma voz perigosa e adversária dessa nova ordem imperial, pois ele desconsidera a importância da democracia, dos direitos humanos e da diplomacia. O autocrata tem intenções imperialistas de velho tipo, com guerras de anexação. O Novo Imperialismo se sustenta a partir da conclusão que a razão humana prefere a paz à guerra, a prosperidade à pobreza, a abundância à escassez.  Há um caminho a ser trilhado, que não se dará de forma natural, mas com grandes batalhas a serem travadas.

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