Uso humanitário da força: o papel da OTAN no Novo Imperialismo

Por Adelson Vidal Alves

O Novo Imperialismo, construído sob o protagonismo diretivo da União Europeia e dos Estados Unidos, deve se estabelecer debaixo de três elementos organizadores: adesão voluntária, uso humanitário da força e cosmopolitismo institucional. Falei do primeiro em recente artigo aqui mesmo no blog, argumentando que o a nova ordem imperial se firma em cima do consentimento e da persuasão, não mais no predomínio da dominação militar. O processo de ocidentalização, isto é, da universalização de valores civilizatórios universais, só tem legitimidade pelo acolhimento espontâneo dos povos, por sua vez, tomando suas escolhas sem qualquer tipo de coerção.

No entanto, o predomínio do consenso e da voluntariedade não anula a necessidade de algum tipo de uso da força, até mesmo ofensivo. Robert Kagan, um dos maiores especialistas geopolíticos do nosso tempo, entende que a Europa perdeu sua capacidade militar e por sua fragilidade prefere apostar na diplomacia, confiando exclusivamente na proteção norte-americana. Tenho para mim que a verdadeira contribuição da Europa se dará no campo diplomático e institucional, tema que discutirei em breve aqui neste espaço. Sendo assim, de fato, o aspecto da força no Novo Imperialismo tem total dependência do aparato bélico dos EUA. Mesmo assim, a ação militar nesta ordem global estará referendada na aliança militar atlântica, isto é, a OTAN.

A Organização do Tratado do Atlântico Norte nasceu durante a Guerra fria, mas nunca operou efetivamente enquanto esta existia. Ela foi criada com o objetivo de defender os interesses de seus associados perante o Pacto de Varsóvia, aliança militar do mundo comunista do Leste europeu. Enquanto esta invadia a Hungria e a Tchecoslováquia, a OTAN, como foi citado, só começou a atuar depois que o mundo bipolar se desfez. Em 1999 interviu na Guerra de Kosovo, não por motivos imperialistas, mas para proteger minorias étnicas na região independentista do Kosovo. Houve intervenção na Líbia, no Kuwait e também operações na África, a pedido, inclusive, da União Africana.

O Uso voluntário da força é um conceito de orientação civilizada para o emprego da violência no Novo Imperialismo. A OTAN recebe críticas por sua expansão a partir de 1997, entrando inclusive na região da ex-URSS. Entretanto, o temor de várias ex-repúblicas soviéticas de um despertar imperialista russo justificou a entrada de vários países à aliança militar ocidental. Hoje, com a guerra de agressão de Putin na Ucrânia, fica evidente a razão dessa expansão militar atlântica. A OTAN não age diretamente contra a Rússia nesta guerra, mas já reforçou as fronteiras dos países membros, e hoje é a principal força de contenção da sede maléfica do imperialismo russo putinista.

O papel da OTAN, então, deve se guiar pelo viés humanitário no que toca sua intervenção externa. A invasão de países e regiões dominadas por forças que contrariam o padrão democrático da diplomacia se faz justa, a fim de garantir a liberdade dos povos nas decisões a serem tomadas. A ação dos EUA no Afeganistão seguiu esse princípio, com a ocupação americana melhorando a vida dos grupos oprimidos, principalmente as mulheres. Se faltou um pouco mais de eficiência na edificação de uma democracia liberal ali, por outro lado ficou claro a importância do uso da força na destruição dos inimigos da paz e da tolerância, como o Talibã, que infelizmente segue existindo.

As forças militares dirigentes do Novo Imperialismo esbarrarão em problemas. A Rússia é uma potência nuclear, o que dificulta um embate decisivo pró-Ocidente no campo de guerra. Além disso, há uma articulação oriental autocrática que forma um bloco bastante hostil e perigoso, no qual o uso da força deve operar dentro de análises bastante racionais. Há ainda o terrorismo, que não tem pátria e assim oferece dificuldades para ações bélicas.

O Uso humanitário da força é um princípio a ser seguido pelos novos agentes imperiais. A proteção das liberdades, a garantia da paz, a estabilidade diplomática do planeta e o extermínio de agrupamentos terroristas são aspectos fundamentais para o arejamento do ambiente planetário, na criação de um mundo livre para acolher a inevitável decisão racional de seguir os valores universais descobertos pelo Ocidente, os únicos capazes de organizar uma duradoura ordem mundial pacífica e próspera.

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