Bolsonaro existiria sem as redes sociais?

Por Adelson Vidal Alves

Confesso, subestimei Bolsonaro. Em 2018, enxerguei no capitão da reserva um perigo, alguém que representasse ideias retrógadas e violentas. Imaginei, na pior das hipóteses, que poderia formar uma pequena e organizada corrente de ideais selvagens e antidemocráticos. Não poderia imaginar que venceria uma eleição presidencial. Acreditava que toda a barbaridade que saia da boca do então parlamentar representaria uma pequena e marginal parcela da opinião pública brasileira. Não foi assim, ele virou presidente.

Bolsonaro foi rejeitado desde sempre pela grande mídia. É de bom grado que em uma democracia a imprensa, interessada na sua própria liberdade, combata nomes ligados a qualquer tipo de autoritarismo. Sendo assim, suas palavras reproduzidas nos principais jornais do país vinham acompanhadas de críticas duras dos comentaristas e também por significativos editoriais. O bolsonarismo então não teria como se espalhar contando apenas com os veículos de comunicação históricos. Por sorte, para o hoje presidente, existem as redes sociais.

Bolsonaro mais que ninguém entendeu o poder da pós-verdade. As pessoas hoje colocam os fatos bem depois dos seus próprios desejos. Assim, acolhem as informações que mais se conectam com suas crenças, mesmo que sejam mentiras. Assim, quando o candidato do PSL anunciou uma ameaça comunista contra a família e a fé, muita gente aceitou sem qualquer investigação prévia. Para muitos, o comunismo, personalizado no PT e na esquerda em geral, tinha como projeto destruir os valores tradicionais, daí o bisonho lema: “conservador nos costumes, liberal na economia”. Essa fórmula foi uma espécie de casamento entre Paulo Guedes e Olavo de Carvalho. O primeiro, representante radical das ideias liberais da Escola de Chicago, o segundo um astrólogo tradicionalista reacionário, que passou a ser o guru dos novos conservadores brasileiros.

Em um país onde se lê pouco e mal, onde a universidade tem baixo diálogo com o povo, onde as instituições democráticas eram desaprovadas pela maior parte da população, estava ali o ambiente perfeito para as ideias de Bolsonaro circularem. Mas, por onde essas ideais seriam difundidas?

Não tenho dúvida em afirmar que foi as redes sociais o principal instrumento de pregação bolsonarista. O twitter, facebook e whatsapp foram algumas das redes sociais que fizeram propagar, em tempo recorde, fakenews das mais bizarras contra os adversários do capitão. Apoio à pedofilia, kitgay, banheiro sem gênero, operação de troca de sexo em crianças, ideologia de gênero etc. E não bastava tentar desmentir usando de fontes. Todos os jornais, os blogs com credibilidade, tudo passou a ser instrumento da “esquerda comunista globalista”. O zap e tudo que chegava por ali, no grupo da família, só podia ser verdade.

A internet trouxe ganhos para toda a sociedade, na melhoria da rapidez da comunicação e na democratização da opinião. Mas com tudo isso veio a terra de ninguém da informação, da falta de controle sobre o que seria digno de reprodução publicamente ou não, coisas que a mídia tradicional sempre fez. Hoje qualquer um pode postar um vídeo no youtube falando que o Foro de São Paulo quer construir uma grande ditadura global no planeta, que o gayzismo quer fazer a juventude brasileira virar homossexual e por ai vai. Tudo sem uso de fontes, basta um pouquinho de criatividade e capacidade narrativa.

Bolsonaro depende dessas redes de mentiras, sem ela nada seria. A ação do TSE na fiscalização das fakenews se faz urgente nessas eleições. O desequilíbrio no uso de noticias falsas distorce a vida eleitoral, ameaça a democracia.

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